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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:48   

Depoimentos

Um depoimento síntese

Aluno da Unesp
Não publicado

“São Paulo, março de 2004.

Venho denunciar as agressões sofridas por mim e por outros alunos recém ingressados na Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), respeitada instituição de ensino.
Na semana passada, pensei estar realizando um sonho, sonho que meus familiares fizeram parte por tanto tempo, sem medir esforços para me apoiar em todos os sentidos: financeiramente, psicologicamente, moralmente, fisicamente. Uma luta de amor, de solidariedade feita pelos meus pais investindo e apostando em meu sucesso, o sonho de ver um filho ingressando em uma universidade pública de tal renome, preparando-se para um futuro, talvez brilhante.
Nos meus curtos dezoito anos aprendi com meus pais o significado do respeito, da honestidade, da integridade, do caráter, do brio... adjetivos estes que para algumas pessoas não têm o menor significado.
Entre a última semana de fevereiro e a primeira semana de março, presenciei e sofri cenas de verdadeira selvageria, que me causaram decepção pela instituição, asco pelos veteranos (aqueles que viriam a se tornar meus “colegas”) e, principalmente, senti a vergonha e a frustração em descobrir que a campanha “diga não à violência” não é percebida nem por esta instituição nem pelos veteranos.
A recepção dada pelos veteranos desta universidade, o chamado “trote”, não passa de uma prática de total degradação moral, psicológica e física. Presenciei cenas de calouros em total desespero, entrando em ataques de choro convulsivo entremeado com a lamúria da frase: “Preciso sair daqui!” que, totalmente sem rumo, não sabiam a quem recorrer com um pedido de socorro, tal a pressão infligida pelo dito trote.
As brincadeiras integrativas que, na realidade, deveriam ser chamadas de torturas e essas humilhações devem acontecer a anos, pois até nomes para elas existem. A partir daqui me referirei por bixo aos calouros que, ao meu ver, é mais cabível após estes trotes, nos quais fomos tratados como verdadeiros animais.
A noção de normalidade do trote neste campus, não só na UNESP (já que até os locais já conhecem e aprovam o trote) está totalmente alterada, não vejo normalidade, apesar de que muitos veteranos dizerem-me ser de praxe para os ingressantes da UNESP, no que se segue:
• Obrigaram-me a ingerir álcool: cerveja, pinga com pimenta
• Muitos veteranos aos berros pejorativos fizeram-me ajoelhar, e em tom de monarca ou até de figura superior, perguntaram seus apelidos desconhecidos por mim, e ao errar normalmente reserva-se o trote mais pesado.
• Obrigaram-nos todos a deitar no chão, de terra, e jogaram em nós terra e água
• Caminhei centenas de metros de cócoras, no modo referido por eles como “elefantinho”.
• Levei tapas na cabeça.
• Já ajoelhado, aplicaram-me um “banho” de cerveja, jogando a cerveja em minha cara e nos meus ouvidos (apesar dos meus ouvidos sofrerem há anos com infecções), além de ter o nariz seguro e puxado, e meu púbis chutado.
• Tive minha cueca arrancada.
• Tive meus ouvidos sujos por tinta, apesar dos apelos que tinha feito sobre a impossibilidade de tal, visto que tenho infecções há anos nos ouvidos.
• Permaneci sujo e pintado sempre, já que lavar era inútil, pois quando limpo era sujo e escrito novamente.
• Mantive-me acordado, pois fui levado a outras repúblicas aonde só sairia após aceitar os trotes, e mesmo assim, como não sou desta cidade, não conseguia chegar aonde me hospedei.
• Ao pedir carona fui levado no porta-malas de um veículo para o campus.
• Fui xingado, humilhado, agredido.
E este foi o “trote integrativo” ao qual fui submetido e aqui se segue o trote que soube existir e que talvez, obrigassem-me a sofrer:
• “Lavagem”: apesar de ter tentado não sofri, este o bixo tem sua cabeça inserida em um vaso sanitário que tem a descarga puxada, podendo até conter excrementos.
• “Mastiguinha”: um veterano mastiga algum alimento que é repassado a quantos bixos tiverem e o último deve engolir. Este absurdo chegou a tal que soube por um veterano que um bixo havia feito a “mastiguinha” com esterco.
• “Vagininha”: os pêlos pubianos do bixo são raspados.
• Raspam-se as sobrancelhas, apesar de se saber que em alguns casos as sobrancelhas não voltam a crescer.
• Ingestão de pinga com unhas e pêlos pubianos.
• Travestir os bixos em público ou retirar-lhes a roupa obrigando-os a andarem nus ou seminus.
• Desenhar em seus corpos pênis e ou escrever xingamentos.
• “Meião”: o bixo tem os pêlos das pernas raspados.
• “Pascu”: o bixo tem passado em seu ânus creme dental.
• “Tabascu”: semelhante ao “pascu”, mas difere em pimenta ao creme dental.
• “Basquecu”: após sujar com creme dental palitos de fósforos jogados no chão, o bixo os recolhe com as nádegas e os “encesta” em algum recipiente próximo.
Qualquer indivíduo que passasse por isso, com toda a certeza teria revidado, agredido, sonharia com vingança ou se isolaria. Eu preferi buscar justiça da maneira menos destrutiva. Só não consegui ficar calado, pois é mais do que óbvio que a violência observada neste ano tende a uma maior intensidade, pois ouvi a frase de um bixo: “este ano sou eu, mas no ano que vem farei pior”, mostrando como isso é uma bola de neve e um círculo vicioso, com veteranos vingando-se do próprio trote que lhes foi aplicado anos antes.
Então a quem possa mudar isto, fica meu apelo. Minha parte da denúncia está terminada. Não posso calar-me, sinto o dever, como cidadão, de denunciar esta prática imoral e ilegal. Mesmo tendo na consciência que serei uma só voz dentre tantos algozes que tentarão silenciar-me e visto isso espero que confira a quem de valor uma atitude, enquanto aguardo.” (Aluno da UNESP – 2004)




      

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