Quando em janeiro de 2002, ao consultar o site da Fuvest, verifiquei que meu filho havia entrado na Esalq.Fiquei feliz porque era, entre todas as universidades, a que ele mais desejava. Porém, passado o júbilo, começou meu desconforto. Esse desconforto tinha um nome: medo dos trotes.
Alguns amigos, cujos filhos já haviam terminado Agronomia, comentavam sobre essas ¨brincadeiras¨, algumas extremamente agressivas e outras tantas, engraçadas. A preocupação com o trote passou a fazer parte das nossas conversas e questões básicas e fundamentais referentes à mudança para outra cidade acabaram ofuscadas pelo perigo que esse “jogo” representava.
Eu e meu marido tentamos conseguir informações mais detalhadas sobre as repúblicas e os trotes, e quanto mais dados conseguíamos, mais preocupados ficávamos porque, além dos relatos bizarros, percebíamos que o nosso jovem universitário achava tudo super interessante, divertidíssimo... “da hora”.
Era um momento delicado, pois o ingresso na ESALQ já implicava em transformações significativas para ele e toda a família, que precisavam ser acalentadas e reprocessadas, e ter que pensar em trotes e violência como “prêmio de ingresso” causava-nos estranheza (que após um ano, ainda permanece).
Resolvemos ser pró-ativos. Nosso jovem e o pai foram aPiracicaba e fizeram uma grande pesquisa. Imobiliárias, bairros, supermercados, apartamentos, casas, contatos com alunos, famílias de alunos e outros detalhes foram vistos. Obtivemos informações sobres repúblicas azulonas (trotistas), vermelhas (não-trotistas) e outras formas de agrupamentos. No dia da matrícula, algumas foram visitadas e a decisão por uma delas teve como base mais o seu histórico do que as suas acomodações.
Confesso que foi com medo e curiosidade que compareci à reunião de pais e vi meu filho, após 15 dias do início das aulas. Durante a reunião, além de prestar atenção ao conteúdo das falas, estava atenta ao comportamento dele. Esquisito, sonolento, pálido, e um corte de cabelo grotesco foram minhas primeiras observações. Terminada a reunião, por sinal muito interessante e informativa, optamos por almoço e conversa em local mais reservado.
Contou-nos que estava gostando muito da república, dos companheiros e não tinha problemas dentro da mesma. Porém, fora dela a pressão era grande.
Participou das atividades que achou conveniente, exaltou-se com alguns, foi incisivo com outros, procurou formas para se safar dos trotes porém, mencionou que muitos colegas estavam sofrendo e que, por medo e coagidos moralmente, submetiam-se a certas práticas bizarras.
Durante o almoço ele dormiu sentado. Explicou seu estado deplorável comentando que não dormia quase nada, em função das festas e mais festas (Maratona de Festas), e que também estava tomando muita cerveja (o que não era seu hábito).
Achamos que esta situação prejudicaria seu desenvolvimento acadêmico. Decidimos então, alugar um apartamento, onde ele moraria sozinho e, com o tempo, arrumaria um ou dois colegas para dividir as despesas. Providências tomadas, novas mudanças, novos investimentos.
No final do primeiro semestre, percebemos que morar sozinho também não foi adequado para ele, estudar ficou em último plano e duas dependências foram adquiridas. Resultado de sua simbiose com as repúblicas. Vendo-se sozinho, ele voltava às mesmas todas as noites, dormia tarde. Não faltava às aulas (98% de presença), mas, com certeza não tinha a menor condição de assimilar o conteúdo.
O clima do primeiro semestre, além de muito tenso, era enganosamente festivo. Havia um desafio no ar, eu o sentia dividido, crítico com alguns aspectos, seduzido por outros; equacionar sua participação adequada, sem submissão, foi uma operação difícil e conflitiva.
Como criar uma identidade dentro de um grupo em que as diferenças ruins eram ressaltadas (apelidos) e o resto era sub-julgado no coletivo através dos trotes? Como resistir sem sofrer discriminações? Qual o real sentido de tais práticas? Qual o prazer dos feitores de trotes? Por que colocar em risco a integridade física e psíquica de colegas em nome de um ritual de passagem? Eram perguntas que não calavam, transformando-se em horas de conversa familiar.
Essas preocupações começaram a adquirir contorno quando recebi, através de meu filho, seis artigos, escritos pelos professores Antonio Almeida e Oriowaldo Queda, para o Jornal de Piracicaba.
Como mãe, fiquei feliz por saber que existia dentro da ESALQ profissionais preocupados com a não-banalização da violência e interessados em entender este obscuro aspecto de uma instituição tão representativa. Então, tomei a liberdade de escrever-lhes um e-mail falando de meus medos;nessa troca de correspondência, fui ampliando minhas informações e elaborando algumas angústias.
Como psicanalista, reprocessava o conteúdo recebido e muito aproveitei para seguir tentando entender esse bicho estranho que é o ser humano. Questões como pertinência, rituais de passagem, lógica, ética, união pela fragmentação do outro, normalidade, responsabilidade, entre outras, acabaram promovendo trocas interessantes.
A idéia de transformar todo material por eles coletado em um livro, será de grande auxílio a pais, novos alunos e uma oportunidade única para que a instituição e seus veteranos relembrem, reflitam e elaborem a “doença” crônica trotista.
Nesse livro, os professores descrevem, com riqueza de detalhes, todo processo pelo qual os ingressantes são submetidos, desde a matrícula. Com muita clareza analisam procedimentos como o da cerimônia do chapéu, o ato de raspar o cabelo, a simbologia das pinturas no corpo, o apelido como marca definitiva, além do ridículo e infantilizado Manual do Bixo (minha opinião pessoal).
Descrevem as práticas trotistas mais conhecidas; algumas desafiam critérios de higiene e preservação da saúde, outras ridicularizam ao máximo os submetidos, outras ainda desafiam normas sociais, sem falar naquelas que colocam em risco a vida dos novatos.
O leitor também encontrará detalhes sobre o funcionamento das repúblicas trotistas e poderá ter uma idéia exata da influência psíquica e social que as mesmas exercem nos alunos, na ESALQ e na cidade. As festas, as rixas e o consumo de drogas lícitas e ilícitas desafiam os jovens ingressantes e a vizinhança.
Queda e Almeida recorrem a diversos e reconhecidos autores para embasar seus comentários, analisam a questão psíquica de forma pertinente e séria. Temas difíceis, tais como: auto-imagem, deslocamento de figuras parentais, ambivalência, perversão, erotização e dependência que gera subordinação, são abordados.
A questão da ambigüidade da instituição e de seus dirigentes, assunto este extremamente delicado, é visto com coragem e objetividade.
Durante toda a leitura há um convite à reflexão, os Autores levam-nos a pensar sobre a prepotência dessa prática, infelizmente institucionalizada, que mascara a violência já tão comum em nosso país; escrevem sobre a criação de uma cultura com a convicção de que a brutalidade é importante, e que colocar pessoas em situações-limite é normal e corriqueiro, desafiando leis e legitimando a transgressão.
Refletir sobre cada uma das práticas, sob o ponto de vista da psicanálise, é tentador, mas este não é o objeto deste espaço, porém, gostaria de tecer comentários sobre a repetição anual dos trotes como função reparadora de conflitos psíquicos.
Inicialmente, quando entrei em contato com esta questão, a lenda grega do jovem Narciso que se apaixonou por sua própria imagem especular parecia-me apropriada à figura do feitor trotista, que através da prática, revia-se incansavelmente na figura do novato e nunca envelheceria. Mas, faltava algo para completar esta idéia, ocorreu-me então, outra lenda grega, a de Pigmaleão e o mito hebraico Golem de Praga.
Pigmaleão, rei de Chipre, apaixona-se por uma estátua de marfim que representava uma mulher (diz-se que esculpida por ele mesmo), ele pede à deusa Afrodite que lhe conceda uma esposa que se pareça com a estátua. Chegando em casa, viu que a estátua tinha vida, casa-se com ela e dá-lhe o nome de Galatea...
Ao contrário de Narciso, que se satisfaz eroticamente retendo a libido junto a si, Pigmaleão reconhece o outro em sua alteridade, deposita sua libido sobre ele para criá-lo ou moldá-lo a partir de um modelo ideal. Pigmaleão (ou nossos veteranos), o criador onisciente e onipotente, engendra sua Galatea (ou nossos ingressantes) como um objeto, isenta de atributos próprios, mas investida com missões específicas que deve cumprir, para confirmar que ele é um criador admirável e idolatrável.
Galatea, em sua impotência, fantasia um Pigmaleão todo-poderoso para que, ao contemplar-se nele, possa participar de sua grandeza, na vã esperança de ser resgatada de suas origens, esquecer seu passado (de estátua) e permanecerem ambos em um sistema de recíproca fascinação.
No pigmalionismo, a libido permanece imantada na conivência narcísica, e não consegue caminhar para uma forma de relacionamento mais sadia que promova a conquista da própria identidade.
O Golem (palavra hebraica que significa massa amorfa ou corpo sem polir) é um ser fabricado artificialmente por fórmulas cabalísticas, que possibilita ao seu criador a façanha de transformá-lo na extensão de sua própria pessoa, totalmente ou em parte, com a possibilidade de controlá-lo e, desse modo, validar seu próprio sentimento de grandiosidade. Contemplando-se nele, recupera a imortalidade e valida seu sentimento de onipotência.
Curiosamente, as características de um Golem nos remetem aos calouros: não fala (“bixo”, também não acha, não pensa), jamais fica doente, pois é imune aos humores malignos do corpo humano (pode praticar “mastiguinha” sem preocupações), deve cumprir funções específicas programadas (rituais trotistas), deve obedecer incondicionalmente a seu criador (os “doutores”).
Sabemos que os novos alunos são ainda adolescentes, uma fase por si só carregada de conflitos oriundos da busca por uma identidade própria. Com a entrada na ESALQ, a maioria deixa suas famílias em outras cidades e, abruptamente, necessitam administrar velhos e novos aspectos de suas vidas, para os quais, com certeza não estão preparados. Nesse momento perigoso, filiar-se a uma neofamília adotiva (república) e a uma nova cultura, é tentador e reparador.
Para crescer e chegar a ter a sua própria identidade, o adolescente necessita realizar duas rupturas: a primeira, com o olhar especular das figuras de pai e mãe (como Narciso, ele se vê refletido neste olhar) e a segunda, das amarras onipotentes dos pais-pigmaleões.
Ao transitar através deste intrincado processo de desidealização, o adolescente e sua família necessitam quebrar uma complexa série de conivências narcísicas que objetiva impulsioná-lo a diferenciar-se da geração de seus pais. Não é uma tarefa fácil. Demanda tempo, paciência e compreensão, além disso, não pode ser delegada, é uma vivência familiar ímpar. A república não substitui a família, não é família, não tem como elaborar um processo como o acima descrito. Freud dizia que “... tudo aquilo que não é resolvido, insiste, retorna, repete-se indefinidamente em busca de uma solução...”.
Ora, parece-me que os adolescentes Esalqueanos saem do colo dos pais e caem no colo dos veteranos sufocadores. Ficam paralisados, não crescem, transformam-se ou continuam Golens. Que pena!
Iara Tereza Gritte Pesciallo
(mãe de aluno da ESALQ, psicóloga/psicanalista)