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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:28   

Depoimentos

Trote na Unifesp

Aluno da Unifesp


Sou aluno da Unifesp. Já tive a oportunidade de testemunhar muitas atrocidades e decidi torná-las públicas.
Na Unifesp há algo atípico no trote. O curso de medicina interfere no trote de todos os cursos. Parece que os alunos de medicina têm algum "poder" dentro da Universidade, pois os professores se curvam diante de seus caprichos. Para evitar esses abusos, os alunos antigos dos outros cursos estabelecem maneiras de identificar o curso dos ingressantes. A questão é que essa identificação é colocada como coação. Existe um acordo ético, não completamente seguido pelos alunos de medicina, que só permite a aplicação do trote por alunos do mesmo curso.
A matrícula é feita na Atlética, associação esportiva da Unifesp. Os ingressantes recebem banho de tinta, não interessa a roupa que estejam usando. Os alunos antigos gostam de colocar a mão na tinta e deixar marcas de mão nas nádegas e seios das meninas num evidente abuso sexual. É jogado muito confete por cima da tinta. Antes que o aluno saia da atlética, é escrito o número do curso na testa. Ou seja, são marcados como gado. Esse ritual é colocado como uma maneira de "proteger" os alunos que não são de medicina.
As moças são obrigadas a partir da primeira semana de aula a pintarem as unhas das cores de seu curso. No caso de medicina é vermelho, para Ciências biomédicas é azul, fonoaudiologia verde, enfermagem rosa e tecnologia oftálmica laranja. A duração desse ritual depende da decisão dos veteranos. Eles fazem uma tortura mental. Dizem que vão aparecer na sala sem avisar para verificar quem está com as unhas de acordo. Isso dura até uma festa chamada "O lançamento dos calouros", em maio. Os meninos recebem a ordem de fazer um moicano nos cabelos e pintar da respectiva cor do curso. A situação é a mesma das meninas.
Depois da matrícula os alunos são levados para o pedágio, pode ser na rua Pedro de Toledo ou na rua Borges Lagoa. A roupa dos rapazes é totalmente rasgada e eles andam pelas ruas com a cueca aparecendo. Eles estipulam um valor, R$10,00 por calouro, por exemplo. Este dinheiro arrecadado com pedágio é todo entregue aos alunos antigos. Esses alunos antigos se apossam de todo esse dinheiro que é gasto em cerveja na Atlética na mesma noite.
Durante as aulas a tortura mental continua. Os alunos antigos tratam os ingressantes por calouro, ou seja, ingressantes não têm nome. Se os ingressantes não obedecem são chamados de "calouro folgado". Ou seja, são sempre tratados de maneira inferior.
O trote de medicina é ainda pior, e um agravante é o fato de os alunos de medicina serem em maior número. Os alunos de medicina sofrem incontáveis humilhações. São colocados ovos dentro da calça dos rapazes e eles são obrigados a dançar músicas da Gretchen.
Esse trote do dia de matrícula ocorre nas ruas. Os acompanhantes (familiares, cônjuges e etc) não são poupados. A presença deles minimiza a agressão, mas não elimina.
Na Unifesp a primeira semana de aula dos ingressantes tem programação específica. Logo na segunda feira acontece a "cervejada" na Atlética. Os alunos antigos dizem que quem não for vai sofrer algo "pior". Os "calouros" recebem ordens do tipo: "Calouro, pegue a cerveja". Eles também são obrigados a beber. Os ingressantes de medicina ficam sempre bêbados e muitas vezes são levados ao hospital São Paulo com princípio de coma alcoólico. Eles não comem nada durante a festa.
Existe uma "brincadeira" chamada "pelado lêlê". Os alunos de medicina começam a cantar essa música e um grupo precisa ir até a frente para dançar sem roupa na frente de todos. A questão é que existe um grupo de ingressantes que se submete a essas humilhações. Em alguns casos, ingressantes são jogados dentro da lata de lixo.
Na Unifesp é tradição que toda vez que os alunos dos últimos anos de medicina trocam de módulo acontece o "dia do banho".O primeiro banho do ano ocorre na terceira ou quarta semana de março. Os calouros são obrigados a participar. Os "veteranos" de medicina chegam até a sala de aula e batem na porta dizendo em coro: "Sangue de calouro!". Entram na sala e na frente do professor exigem que os alunos vão até a Atlética para participar. Os alunos antigos de medicina ficam nas ruas armados de baldes, bexigas e revólveres com água e molham os transeuntes que parecem ser alunos da Universidade.
O trote da primeira prova prática de anatomia encerra o ciclo de trotes dos ingressantes de medicina. Os alunos fazem a prova teórica de anatomia pela manhã. Logo depois todos se dirigem para o laboratório de anatomia com o objetivo de fazer a prova prática. Quando esses grupos saem do laboratório são amarrados entre si com cordas e depois amarrados em árvores e postes. Levam banho de tinta, água suja e farinha. Essa água é atirada da sacada pelos alunos antigos. O laboratório é ocupado pelos alunos de medicina e as próximas aulas são suspensas. Nenhum professor exige a disponibilidade do laboratório, simplesmente adia a atividade previamente marcada. Ou seja, essa violência é de conhecimento de todos dentro da Universidade.
No final do ano acontecem competições esportivas (Interfono, Intermed e etc). Elas acontecem no interior de São Paulo. As caravanas deixam a Unifesp e todos os alunos dormem juntos no mesmo alojamento. Nesse lugar os ingressantes dormem no chão, preparam a comida, fazem a limpeza e todo o serviço doméstico, enfim, trabalham como escravos.
O que eu não entendo, é por que os ingressantes aceitam isso. Existe um grupo superior a 50% da turma que considera de fundamental importância ter um bom relacionamento com os alunos antigos. Portanto, os próprios ingressantes pressionam a turma para que esses rituais sejam seguidos.




      

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